Edição n. 418 - 04 de setembro de 2010

[edição 337]
Energia

O recente apagão, que atingiu 10 estados e mais de 30 milhões de pessoas, vai suscitar diversas interpretações sobre a causa e responsabilidade, sobre possíveis medidas preventivas e mitigadoras, bem como as alternativas para problemas desta natureza. Uma das questões relativas ao nosso modelo de matriz energética é a excessiva dependência da geração hidrelétrica, em detrimento a outras tecnologias, como a eólica ou a solar, visto que no Brasil temos regiões com 90% do ano sem chuva. Em Santa Catarina, parte considerável da energia produzida é termoelétrica, por meio da queima de combustível fóssil. Porém, esta matriz hidrelétrica não surgiu por acaso, mas pelo modelo de desenvolvimento socioeconômico adotado nos últimos quarenta anos.
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Brasil grande

Uma herança cultural significativa que temos deste período é a visão de que obras superlativas nos tornariam um país desenvolvido, uma potência regional e melhor inserido internacionalmente. Durante o regime militar, foram feitas a ponte Rio-Niterói, iniciada a rodovia Transamazônica, incentivada a industrialização de base e, para dar suporte a isso, foi construída a hidrelétrica de Itaipu. Na década de 1980, ocorreu um avanço maciço da agricultura no cerrado brasileiro, que avançou pelo Sul da Amazônia na década seguinte, trazendo como conseqüências a queimada de matas nativas, monoculturas, conflitos pela terra. O que agora percebemos com clareza é que este modelo de desenvolvimento não atende mais às nossas necessidades atuais, nem ao futuro que queremos. O que defendemos, é o desenvolvimento sustentável, onde o acesso a bens e serviços não comprometa a qualidade de vida atual e das futuras gerações. Então, para que o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) dê certo não se deveria flexibilizar as licenças ambientais para empreendimentos na Amazônia, por exemplo. Se houvesse racionalidade na política de desenvolvimento, a dimensão socioambiental deveria estar presente na elaboração.
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Queimar o sofá

No afã de fazer o PAC sair de uma suposta letargia, o governo Lula quer retirar poderes do Tribunal de Contas da União na fiscalização de obras em andamento e em fase de licitação. Isto porque entre mais de 200 obras fiscalizadas, 22 apresentavam irregularidades, devido a superfaturamento ou erro na licitação, 17 do PAC. Em paralelo, quer também limitar o papel do Ibama em fiscalizar e conceder licenças ambientais, repartido estas atribuições entre a União, estados e municípios. Esta política de desenvolvimento assemelha-se ao comportamento do marido traído que surpreende a mulher e manda queimar o sofá. Todavia, não garante um futuro melhor para o casamento.


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