Edição n. 418 - 04 de setembro de 2010

[edição 342]
O rio e a aldeia

O poeta Fernando Pessoa dizia, através por meio de seus personagens, que o Tejo não é o rio que corria pela sua aldeia. Recordando a calamidade do ano passado e a interação que temos com o rio Itajaí, ouso pensar no rio que queremos para nossa aldeia. Traduzo aldeia pelo ambiente em que todos se conhecem, convivem num espaço físico delimitado pelas relações interpessoais e econômicas de seus habitantes e pela necessidade de dar respostas conjuntas aos desafios que aparecem. Neste sentido, o Vale do Itajaí poderia ser considerado uma aldeia, pelo conjunto orgânico de suas necessidades e pelos seus desafios face ao futuro. Temos o sentimento de pertencimento ao lugar e o costume de agirmos em comunidade, embora, às vezes, com posturas distintas aos problemas.
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Olhar pelo avesso

Recordamos a calamidade pelo que vimos de seus efeitos, seja nos rostos da população, nas ruas e encostas sujas e arriadas, nas dificuldades de solucionar os problemas decorrentes do evento. Falamos e discutimos, principalmente, os resultados vistos do desastre. Ou seja, buscamos responsabilidades - se o desastre foi de origem natural ou decorrente de ação humana, pelo espanto ao ver o que aconteceu. Por ser a visão um dos principais instrumentos de aporte à realidade, a partir do que vimos construímos conceitos, estabelecemos uma visão do mundo. Não nego a importância do ato de ver, mas para entender o mundo, devemos ir além da realidade aparente ou dar uma volta ao redor da pseudo-realidade, como dizia o filósofo Karel Kosik. Dar esta volta é estabelecer um olhar sobre a realidade, é entender os fundamentos sobre o que causaram o evento, para prospectivamente, e assim ter possibilidades concretas de apresentar soluções para o futuro. Entendo que é importante recuperar a infraestrutura afetada, mas se não tivermos um olhar educado para enxergar além das aparências do desastre, corremos o risco de estar sempre consertando estragos, atribuindo a um ou a outro as responsabilidades.
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Fingir a dor

Passado um ano do evento, temos o levantamento do que foi destruído, temos ainda desabrigados com distintos estados de ânimo, um porto em reconstrução, algumas vias públicas em recuperação, isto na grande comunidade que chamo de minha aldeia. Temos também promessas do Poder Público, em diversos níveis, algumas cumpridas outras não. Parece que o tom político é correr atrás do desastre, para mitigar os efeitos, e não estabelecer políticas públicas que possam evitar o problema. Não apenas relatar planos e falar que sentimos muito. Fernando Pessoa também dizia que o poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.


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